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Mais uma Chance!

Por: Marcos Fabossi (*)

 Naquela manhã, depois de um sono agitado, deu vontade de dormir um pouco mais, mas logo pensei no trânsito e na montanha de coisas que tenho pra resolver na empresa, e pulei da cama. Fiz a barba rapidinho, tomei um “banho de gato” e joguei uma roupa por cima do corpo enquanto seguia pensando em tudo que precisava fazer durante o dia.

 Resmunguei um “bom dia” sem muita convicção, dei um “selinho” descomprometido nos lábios da minha esposa que se ofereciam para um beijo de despedida, e nem notei que os olhos dela ainda guardavam a doçura de uma mulher apaixonada, mesmo depois de tantos anos de casamento.

 Eu não entendia por que ela vivia reivindicando mais tempo para ficarmos juntos. Afinal, eu estou fazendo tudo isso por nós; estamos melhorando o padrão de vida, não estamos?

 Puxa vida! Esqueci de beijar meus filhos que ainda dormiam, e de orar, e pedir a benção e proteção de Deus sobre suas vidas! Mas tudo bem… “Deus, por favor, guarda e abençoa minha família. Amém”. Enquanto dirigia liguei pra minha filha casada. Sorri quando soube que meu netinho havia dado os primeiros passos. Fiquei sério quando minha filha lembrou-me de que há tempos eu não aparecia para ver meu netinho e, então, me convidou pra almoçar. Eu adoraria estar com minha filha e meu neto, mas não podia sair da empresa naquele dia. Agradeci o convite, mas respondi que seria impossível. Quem sabe no próximo final de semana?

 Cheguei à empresa, cumprimentei rapidamente as pessoas porque a agenda estava lotada, e eu precisava começar logo a atender meus compromissos. Na hora do almoço, “engoli” um sanduíche e um refrigerante “diet”, enquanto revisava alguns papéis. Acabei me enrolando com alguns temas e sai atrasado para a reunião com um cliente. Nem esperei o elevador. Desci as escadas pulando de dois em dois degraus.

 Entrei no carro, dei partida e, quando me preparava para sair, senti novamente “aquele” mal-estar, que agora veio acompanhado de uma forte dor no peito. O ar começou a faltar, a dor foi aumentando, o carro desapareceu, os outros carros também.

 Os pilares, as paredes, a porta, a claridade da rua, as luzes do teto, tudo foi sumindo diante dos meus olhos ao mesmo tempo em que surgiam cenas de um filme que eu conhecia muito bem. Quadro a quadro, nele eu via minha esposa, meus filhos, meu netinho, uma após outra, todas as pessoas que eu mais amava.

 Por que é mesmo que eu não tinha ido almoçar com a filha e meu neto? O que minha esposa tentou dizer quando eu estava saindo hoje de manhã? Por que eu não fui jogar bola com meus filhos no final de semana? Por que eu não fui pescar com meus amigos no último feriado? A dor no peito persistia, mas outra dor começava a perturbar-me e eu não conseguia distinguir qual era a mais forte: se a dor da coronária entupida ou a dor da minha alma se rasgando de arrependimento.

 Escutei o barulho de alguma coisa se quebrando dentro do meu peito, enquanto lágrimas silenciosas escorriam dos meus olhos. Queria continuar vivendo, queria mais uma chance, queria voltar para casa e beijar apaixonadamente a minha esposa, abraçar meus filhos, rever minha filha, brincar com meu neto, rever meus amigos… queria, queria muito, mas não deu tempo.

 O personagem dessa estória não teve mais uma chance, mas você e eu ainda temos. Aliás, aquilo que chamamos de “presente”, nada mais é do que uma nova chance que Deus nos dá para fazermos no presente, algo que possa ajudar a construir um futuro melhor, ainda que o passado não tenha sido tão bom.

 Em nome do sucesso, da prosperidade, e de um monte de outras coisas, muitas pessoas vivem como se fossem imortais, sem a menor preocupação com o próprio bem-estar e saúde; tão envolvidos com trabalho e carreira, que deixam a vida lhes escapar por entre os dedos. Tão preocupados com o padrão de vida, que acabam vivendo uma vida sem padrão. Tão engajados na conquista de seus objetivos, que deixam de perceber a quantidade de mortos e feridos que deixam pelo caminho.

 Há alguns anos comecei a refletir um pouco mais sobre este assunto, e desde então decidi mudar algumas coisas em minha vida, e durante este tempo, dois pensamentos me acompanham e me ajudam a valorizar aquilo que julgo realmente importante em minha vida:

 Nenhum outro sucesso na vida pode compensar o fracasso no lar” (David O. McKay), e “A Jornada é mais importante que o Destino”, porque, qualquer que seja o destino, se não cuidarmos daqueles que amamos durante a nossa jornada, incluindo nós mesmos, a vida perde o sentido.

 Homens e mulheres de sucesso são, de fato, os que fazem diferença na vida daqueles que os cercam e que conseguem fazer o mundo um pouco melhor graças à sua existência; são aqueles que dedicam seu tempo e sua vida aos seus grandes amores.

 São aqueles que, apesar de viverem num mundo extremamente competitivo, sabem que sua maior missão é serem felizes e criar oportunidades para que os outros também sejam.

 Aproveite esta chance!

 (*) Marco Fabossi  é Conferencista, Escritor, Consultor, Coach Executivo e Coach de Equipe, com foco em LiderançaSócio-diretor da Crescimentum – Alta Performance em Liderança, que tem como missão: Construir um mundo melhor, transformando pessoas em líderes extraordinários“.